sábado, 12 de maio de 2018

Transparece-me

 

Transparece-me
De urgência e de luar
Do tamanho do meu e do teu infinito,
Na minha imagem tão crua.
Transparece-me de amargura,
De nome,
De um véu que me despe inteira,
A rasar esta planura.
Se um dia eu alvorecer transparece-me da noite,
Vil e escura.
Se um dia eu alvorecer...

A minha transparência será tua.


Imagem: Escultura de Jack Storms

quarta-feira, 28 de março de 2018

Festival Internacional de Poesia "Grito de Mulher"


É com muito gosto que participarei mais uma vez no Festival Internacional de Poesia "Grito de Mulher"
Sintam-se convidados. Terei muito gosto que apareçam e promete ser  uma boa jornada de poesia.

segunda-feira, 19 de março de 2018

Transparente






Primeiro foram os contornos do rosto a esbaterem-se logo seguidos do inconsciente.
Ainda havia pernas, braços e uma vaga ideia de pestanas e, já nada se vislumbrava do inconsciente…Só uma névoa a lembrar um episódio remoto ou uma ideia que outrora tinha sido fixa.
O medo, a morte, a vida, a criatividade e a urgência teriam que brotar agora dos dedos dos pés, do lugar recôndito das virilhas entrelaçadas aos tendões, das dobras dos cotovelos que se faziam espuma tão mas tão,  depressa…
Fosse como fosse, dentro de muito pouco tempo nada restaria. Pelo menos, nada que se visse.



Fotografia: Mornaria

segunda-feira, 12 de março de 2018

Abraço de olhar




Abracei-te o olhar num dia em que não havia vento nem sombras nem nenhuma tarde, por mais pequena que fosse, estendida ao sol. Só o tempo, num galope desenfreado por entre os pingos grosso da chuva que se escorria devagar. Tão devagar.
Primeiro segurei-te o canto  olhos com as minhas pestanas, suavemente. E com vontade. Muita vontade. Depois, fiz deslizar uma a uma as minhas lágrimas, plenas que se refundiram na tua água.
Era de um azul macio a tua água. Era cinza o meu olhar.
A noite que chegou entretanto, embalou-se de um verde-quase-tudo por entre as luzes baças e mudas.
Dançamos,  até ao nascer de mim.

sábado, 24 de fevereiro de 2018

Homem de sabão





Experimentou...Apesar de todos lhe dizerem que era feito de sabão, descer à rua num dia de chuva. Não derreteu  mais do que o necessário para  fazer escorregar o silêncio no alcatrão. Foi só isso que aconteceu: escorregou o silêncio no alcatrão.
Mas ao contrário do que se poderia prever, não se desfez.

Mal chegou a casa, despiu a gabardina, descalçou os sapatos e, sem saber porquê, começou  a chorar.
As lágrimas correram céleres foram deixando um rasto de bolas de sabão que a pouco e pouco lhe foram desfazendo as ideias...
Uma a uma, as ideias rolaram desfeitas, pelo chão.


quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

Sete Chaves , no lugar do teu coração


Era difícil entrar em casa com a memória assim, escancarada de fresco.
Rodar sete vezes as chaves que trazia ao peito, desde que nascera, parecia-lhe tarefa improvável.
Sete vezes, dissera-lhe a mãe antes de morrer. Sete vezes, cada uma das sete chaves, para o lado de onde te soara o teu coração.
e as escadas a galgarem-lhe o pensamento.
E as portas que rangiam de encontro aos sopros que vinham do quintal.
O coração a sobrepor-se , numa linha imaginária que se estendia pela sombra dos ombros e até ao patamar maior da sua existência.
Nunca lhe parecera que esse dia pudesse acontecer... ^
A Infância, aberta de par em par, escorregava-lhe agora pelo canto dos olhos, em catadupa
Tivera ela, tempo de rodar uma a uma todas as maçanetas?


In " A Magia das chaves" Edições Vieira da Silva

na imagem: as chaves do Santo epulcro de Jerusalém.

segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

Sombras



"- Quero uma navalha. suficientemente afiada e totalmente discreta para matar e estripar sombras.
Ninguém  se espantou com o pedido. O tempo era de desassombros do passado e de receios mais que fundados no futuro.Delicadamente, confiaram-lhe a melhor peça da loja: Uma navalha, infinita no alcance e praticamente invisível no meneio. Não era de gente que se tornaria matador. Mas somente das sombras das gentes. dessas que carregam as memórias quando se colam aos passos. Dessas, que sugerem futuros, sempre que o sol as projecta para a frente. Sombras do tempo de recordar. E, também do tempo de poder vir a sonhar."

In "Contos Capitais", Edições Parsifal

sábado, 25 de novembro de 2017

Vestes no meu caminho



Rasguei o meu dia
Das vestes, se as havia.
Ao entardecer revesti-me de mim.
Se o dia parar por um instante,
Uma mera ocasião de nada,
O dia me vestirá
De rubro,
E a noite me respirará,
Inteira,
Na ponta de uma espada.

As sombras que me perseguem,
São mudas.
Halos de luz na madrugada,
Espectros do meu caminho,
farrapo que trago comigo,
Aos ombros,
Na estrada.


fotografia: escultura da artista Coreana Seung Mo Park

sábado, 18 de novembro de 2017

Saia de mulher



De repente o céu ardeu.
Ardeu de fumo, sem fogo
De fogo, sem pó.
E a minha saia rodada,
Que se rodava ao vento,
A minha saia rodada,
descompassada do tempo,
Pendurada,
Morta,
Só.

sábado, 14 de outubro de 2017

Setembro



Setembro fazia-se sempre a tempo.
Sobretudo no vento que rodopiava cá em baixo. E obrigava a dançar o areal, em ritmo acelerado de nortada. O mar subia agora ao pico do equinócio, deslizando entre a saudade de quem se vai,quase por completo, para logo voltar, senhor de todos os espaços. Na praia, restavam apenas algumas barracas. Em cima, na serra, despontavam as amoras. E o gosto de se lhe beber da seiva e de se lhes juntar o mel da urze e da giesta. Amoras douradas, com sabor a vento, essas. Nascidas do olhar arregalado do mar.

Filipa Vera Jardim in " São Martinho do Porto - Momentos"

O quadro: Outono de José Malhoa